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07/08

Confira nossa tradução da matéria Ritmos y sabores de Salvador de Bahía, publicada por Elisabet Sans, no dia 24 de julho de 2019, no site do El País.

RITMOS E SABORES DE SALVADOR

A herança portuguesa e africana marca o caráter dessa cidade brasileira. Dá para sentir em suas casas coloniais, os azulejos de suas igrejas, suas danças e no candomblé. Uma viagem das ruas do Pelourinho às praias de Itapuã.

Tropical, musical e colorida. Salvador é o Brasil puro e a pura miscigenação cultural. A herança europeia e africana aparece em todos os cantos. Aqui os colonos portugueses chegaram no século XVI e aqui nasceu o samba de roda. Ela seduziu o músico Vinícius de Moraes e o escritor Jorge Amado, que incorporaram o espírito da cidade - onde "o mistério corre como óleo" - e também artistas como o argentino Carybé e o fotógrafo francês Pierre Verger. O centro histórico - o Pelourinho -, a animada vida noturna do Rio Vermelho, as saborosas caipirinhas de caju (fruto do cajueiro) e as moquecas de peixe, a interminável praia de Itapuã e as essências do candomblé conquistam quem descobre essa vibrante cidade aninhada na Baía de Todos os Santos.

Depois de pagar R$ 0,15 (cerca de 0,03 euros), os 72 metros de altura do Elevador Lacerda conectam, desde 1873, a parte baixa da cidade com a Praça Municipal, na Cidade Alta, um dos melhores pontos para começar a passear no centro histórico. Fundada em 1549, Salvador foi a primeira capital do Brasil até 1763 e, para muitos, continua a ser a alma do país. A primeira Faculdade de Medicina do Brasil, a Catedral, inúmeros edifícios de estilo colonial e renascentista dos séculos XVI a XVIII, o Museu do Carnaval... e uma das áreas mais icônicas e fotografadas estão concentradas no Pelourinho: Largo do Pelourinho, um lugar que alcançou fama mundial ao aparecer no videoclipe de Michael Jackson, They Don't Care About Us.

Desde que o centro histórico foi declarado patrimônio da humanidade em 1985, o Pelourinho foi bastante renovado. Um exemplo: na Rua Chile abriram dois luxuosos hotéis (Fera Palace e Fasano) e um belo prédio da Praça Municipal está sendo restaurado para se tornar um espaço gastronômico. O bairro, de onde muitos vizinhos saíram, é hoje uma área de ar boêmio dominada por lojas, galerias, restaurantes e bares. Mas você ainda respira autenticidade. Andando por suas praças e ruas íngremes e de paralelepípedos, cruza-se com homens jogando dominó e com as baianas, mulheres vestidas com volumosos vestidos brancos e turbantes coloridos (sim, se as fotografarem, pedirão algum dinheiro em troca).

Aqui também está a sede da Olodum, uma associação afro-brasileira nascida em 1979 que combate o racismo e promove a igualdade social através da música. Vale a pena a visita coincidindo com um de seus ensaios. O ritmo de seus tambores é sentido da cabeça aos pés. A música também se supera no espetáculo do Balé Folclórico da Bahia (e sua capoeira acelera o coração) e, de quinta a sábado, no Largo do Cruzeiro de São Francisco. Você tem que parar para ouvir músicos de rua entre os bares nesta rua, enquanto contempla a igreja barroca de São Francisco. O seu templo coberto com madeira e folha de ouro e um claustro com paredes decoradas com azulejos azuis recordam a influência portuguesa.

De praia em praia

Com temperaturas que não chegam a 40º C nem abaixo de 17º C, e águas quentes o ano todo, você tem que desocupar o roteiro de viagem para aproveitar uma de suas praias urbanas. Entre os fortes de São Diogo e Santa Maria, convertidos no Espaço Carybé e no Espaço Pierre Verger da Fotografia Baiana, respectivamente, está a sempre movimentada Praia do Porto do Barra. Segue-se o Farol da Barra, Ondina ou Pituba, na qual as praias desaparecem atrás das bolas de futebol, deixando claro que esse esporte faz parte do DNA dos brasileiros. “Queijooo! Queijo na brasa! Queijooo! ”. Você vai ouvir gritos de mais de um vendedor ambulante de queijo coalho, um lanche típico de queijo que é assado em uma pequena grelha portátil na praia.

De uma praia para o outra, você pode seguir ao longo da ciclovia pela orla. Se em 2012 foram 34 quilômetros, hoje são cerca de 220, como orgulhosamente explica a Secretaria de Turismo de Salvador da Bahia, anfitriã dessa viagem. A Câmara Municipal também começou a construção do Museu da Música e um novo Palácio do Congresso, e o aeroporto está sendo reformado. Eles querem atrair o turismo além do verão (em 2017, 3,5 milhões de pessoas visitaram a cidade), quando celebram seu famoso carnaval (em fevereiro). Se no Rio de Janeiro a música, a dança e a festa se concentram no sambódromo, aqui os trios elétricos (caminhões com grandes alto-falantes) tomam as ruas.

De bicicleta você pode chegar a Itapuã, uma antiga vila de pescadores absorvida por Salvador. Um paraíso de quilômetros e ampla faixa de areia, menos urbanas e moldadas por coqueiros, que inspiraram algumas das canções de Caetano Veloso ou a conhecida Tarde Em Itapuã, de Vinícius de Moraes. O cantor construiu uma casa nos anos 70 para morar com sua sétima esposa, a atriz baiana Gessy Gesse. Hoje está integrada ao hotel Mar Brasil e pode-se dormir em sua cama, surpreender-se com a escultura de bundas que adornam a parede do banheiro ou relaxar na banheira com vista para o Atlântico.

É provável que durante um mergulho você encontre rosas flutuando. É uma oferenda a Yemanjá, a divindade do mar e dos pescadores e um dos orixás mais populares do candomblé, uma religião afro-brasileira enraizada entre os baianos. Desde 1558, esta cidade no leste do Brasil tornou-se o principal porto norte-americano onde os escravos chegaram da África. A maioria se converteu ao catolicismo, mas sua identidade cultural e religiosa sobreviveu no Candomblé, que foi banido até meados do século XX. Nesta cidade de mais de 2,5 milhões de habitantes, vive a maior comunidade negra do mundo fora do continente africano e, embora existam cerca de 300 igrejas, o número de terreiros, os templos dedicados aos Orixás (muitos associados aos santos católicos), atinge o número de 1.600. Alguns podem ser visitados também durante suas celebrações cheias de músicas e danças frenéticas. A Casa Oxumaré é uma das mais antigas, com origens que remontam ao início do século XIX.

Levando em conta que em Salvador de Bahia existem áreas de favelas onde não é aconselhável entrar (muito menos sem um guia), ainda há uma cidade para explorar. O Mercado Modelo (Praça do Visconde de Cairu) foi a primeira alfândega do Brasil e hoje é o epicentro das lojas de artesanato e lembranças locais. Também vale a pena visitar a Casa do Rio Vermelho (Rua Alagoinhas, 33. Entrada: 20 reais), antiga casa de Jorge Amado e sua esposa, também a escritora Zélia Gattai, onde receberam personagens como Pablo Neruda, Sartre, Simone de Beauvoir e Jack Nicholson e hoje suas cinzas descansam. Uma escultura do amado casal sentado em um banco no animado Largo de Santana os lembra, e muitas pessoas se sentam para tirar uma foto com eles antes ou depois de matar a fome com um típico acarajé da Dinha.

Há também muitos que, ao visitarem a igreja do Bonfim, amarram as chamadas “fitinhas do Bonfim” – fitas coloridas de tecido colorido usadas como amuleto religioso – em sua grade. Existem centenas. É a igreja mais importante para os católicos e também, embora pareça estranho, para os praticantes do candomblé. Todo segundo domingo depois do Dia de Reis, há uma maciça e festiva peregrinação de baianos para homenagear Oxalá, pai de todos os Orixás. Perto dali está a Ponta de Humaitá, um dos lugares mais populares para assistir ao pôr do sol. Enquanto se acendem as luzes da cidade e de seus arranha-céus, alguns pescam, outros tocam violão e algumas mulheres jogam flores no mar em homenagem a Yemanjá. Como Jorge Amado escreveu: “Se você ama sua cidade, se sua cidade é Rio, Paris, Londres ou São Petersburgo, Veneza, a dos canais, ou de Praga, das antigas torres, Pequim ou Viena, você não deve passar por essa cidade da Bahia porque um novo amor vai se prenderá em seu coração. ”

ILHAS E SABORES MARINHOS

A Baía de Todos os Santos, uma das maiores do mundo, inclui cinquenta ilhas. A de Itaparica é conhecido como A Ilha: é para onde vai a maioria dos baianos. Do Terminal Turístico Nautico da Bahia, perto do elevador Lacerda, a balsa sai (dura uma hora).

Você também pode alugar um barco ou pagar uma excursão para conhecer a Ilha dos Frades. Dizem que o seu nome se deve ao naufrágio de alguns franciscanos e que aqueles que sobreviveram foram devorados pelos habitantes da ilha. Além das lendas, vale a pena navegar por cerca de 90 minutos até suas praias. Além disso, é aqui onde fica o restaurante Preta. Deveriam ser pecado suas deliciosas moquecas: um ensopado de peixe, frutos do mar ou ambos, da culinária indígena brasileira, que se come com farofa e arroz.